A fotografia de vida selvagem vai muito além do registro estético: ela é ferramenta de conhecimento, sensibilização e conservação. Quando aliada à ciência e à educação ambiental, seu impacto se torna ainda mais profundo.
Nesta entrevista exclusiva para o Clube de Fotografia Campinas (CFC), conversamos com Leonardo Casadei — fotógrafo de vida selvagem, biólogo, mestre em ecologia, professor e autor do livro Aves da Costa da Mata Atlântica. Ao longo da conversa, Leonardo compartilha sua trajetória, seus processos criativos, o olhar atento sobre a biodiversidade brasileira e o papel da fotografia como ponte entre a natureza e as pessoas.
Uma conversa inspiradora para fotógrafos, educadores, estudantes e todos aqueles que acreditam na imagem como instrumento de transformação.
***Você tem uma trajetória que une biologia, ecologia e fotografia. Como começou sua relação com a natureza e, depois, com a fotografia de vida selvagem?
L.C.: A paixão pela natureza nasceu de criança. Passava horas vendo as formigas se movimentarem, observando a vida no jardim da minha casa. Colecionava revistas, livros, álbuns e tudo o que pudesse saciar a minha curiosidade incessante sobre a vida selvagem.
Costumo dizer que a gente nasce biólogo. Infelizmente quando crescemos a curiosidade vai se perdendo. A minha continuou e isso tudo me fascina demais. Estar na natureza para mim é fazer um mergulho de contemplação, esquecer dos problemas e relaxar o estresse.
A biologia e ecologia são minhas paixões. Minhas áreas preferidas de estudo. Comecei a fotografar aves para eternizar as imagens que meus olhos viam e poder compartilhar com as outras pessoas.
Para mim cada foto, cada espécie clicada, cada uma das imagens que fiz, tem uma história. Quando olho para cada foto, viajo, vou numa fração de segundos ao momento da cena, vivo toda aquela emoção novamente; acredito que este seja o maior poder de uma foto: reviver os momentos.
***Em que momento você percebeu que a fotografia poderia ser uma ferramenta tão poderosa quanto a ciência para comunicar e sensibilizar as pessoas sobre a conservação?
L.C.: Transmitir, por meio de imagens, a beleza de cada espécie com o máximo de realismo possível e, assim, sensibilizar para a importância da preservação ambiental é algo fascinante. As pessoas se sentem tocadas, provocadas. As aves possuem uma beleza extraordinária; é impossível permanecer indiferente.
Quando comecei a publicar essas imagens, percebi o quanto existe uma profunda carência de conhecimento sobre a nossa fauna. Para muitos, esse universo parece distante, quase inacessível. Minha missão é justamente aproximar esse mundo das pessoas. Infelizmente, as grandes cidades, a tecnologia e o ritmo acelerado do trabalho afastam cada vez mais o ser humano do seu ambiente natural, a floresta.
Abrir esse universo para as pessoas é o que me move. Mostrar que as aves estão por toda parte e podem ser admiradas a qualquer momento: no jardim, no parque, na praça ou pela janela de casa. No fundo, minha missão é despertar nas pessoas o interesse pela observação de aves.
Isso aconteceu comigo. Mesmo sendo biólogo, há 16 anos atrás eu não sabia o que era uma cambacica. Depois que esse mundo se abriu, ele nunca mais se fechou. A maioria das pessoas não faz ideia da imensa diversidade de aves que existe em nosso país. A observação de aves salva, cura, conforta, alegra e nos reconecta à nossa verdadeira essência: uma vida simples, natural.
***Como sua formação acadêmica em biologia e seu mestrado em ecologia influenciam seu olhar fotográfico no campo?
L.C.: Acredito que isso ajuda muito no trabalho de campo, pois desenvolve um olhar treinado. Na natureza, observamos tudo: uma flor, um inseto, até chegar às aves, que são a nossa maior paixão. Ao mesmo tempo, conheço muitas pessoas que, mesmo sem formação acadêmica, possuem um olhar profundo e sensível para a diversidade. É uma questão de treinar o olhar.
***A fotografia de vida selvagem exige paciência, técnica e respeito ao ambiente. Quais são, na sua opinião, os maiores desafios dessa área hoje?
L.C.: A fotografia de aves exige muita paciência e persistência. Às vezes, podem passar anos até que uma determinada ave permita um bom registro. São animais ariscos, voam o tempo todo, estão sempre em movimento… rs. Em alguns dias até “dão mole”, mas pousam em locais escuros ou no meio da mata, onde a falta de luz impede uma boa fotografia.
Houve épocas em que eu passava um fim de semana inteiro em frente a um ninho. Durante o período de choco, chegava a esperar três horas por uma única foto, apenas para registrar a troca de plantão de casais de pica-paus ou tucanos que se revezavam nos cuidados com a prole. Qualquer pessoa que passasse por ali nesse intervalo não veria absolutamente nada: as aves são extremamente cautelosas, entrando e saindo do ninho de forma rápida e discreta, quase invisível.
Mas é uma paixão. É preciso gostar muito do que se faz e saber lidar com as frustrações, porque nem toda saída de campo rende boas imagens. Por outro lado, quando finalmente conseguimos aquela foto especial ou temos “aquele” encontro tão sonhado com uma ave, todo o esforço vale a pena. É um momento de êxtase. Costumo dizer que é preciso respeitar o tempo da ave e da natureza — sem pressa, sem pressão. Uma hora, a boa foto acontece.
Além disso, estar na natureza já é, por si só, uma recompensa: respirar ar puro, sentir o cheiro do mato, desacelerar. É meditação, terapia, alívio para a alma. Só isso já faz a saída valer a pena; as fotos acabam sendo um bônus extra do campo.
Um dos maiores desafios que enfrentamos hoje como observadores é o desmatamento. Comecei a fotografar há 13 anos e, ao retornar a muitos dos locais onde iniciei, encontro áreas tomadas por casas, com a mata sendo engolida pouco a pouco e inúmeras espécies perdendo seus lares. É profundamente triste. Nenhuma árvore deveria ser cortada. Infelizmente, a realidade é assustadora. Precisamos lutar cada vez mais pela preservação das áreas naturais. Esse é o nosso dever e nossa responsabilidade enquanto observadores da vida selvagem.
***Existe alguma espécie — especialmente de aves — pela qual você tenha um carinho ou fascínio especial? Por quê?
L.C.: Sempre que penso nisso fico dividido. Sou completamente apaixonado por tucanos e pica-paus — aves de uma beleza extrema, sobre as quais inclusive escrevi um livro. Ultimamente, porém, tenho me encantado cada vez mais com os beija-flores… rs. No fundo, amo todas. Cada espécie, com seu modo de vida, é única. As aves são todas incríveis.
Mas, se tivesse que escolher uma espécie favorita — e isso não é segredo para ninguém — seria, sem dúvida, o Tiê-sangue. Foi a partir do momento em que ele começou a aparecer aqui em casa que passei a observá-lo com mais atenção. Sou completamente apaixonado por essa ave e, felizmente, não posso reclamar: ele sempre me brinda com ótimas oportunidades de fotografia… rs.
***Entre tantas imagens produzidas ao longo da carreira, há alguma fotografia que seja especialmente marcante ou significativa para você? Pode nos contar a história por trás dela?
L.C.: Foram tantos momentos marcantes ao longo do caminho que é difícil eleger apenas um. Ainda assim, acredito que um dos mais especiais tenha sido a primeira imagem que realmente ganhou destaque nas redes sociais: a foto da corujinha virando a cabeça, feita no início da minha carreira, em 2013.
Fiquei imediatamente fascinado pelo fato de a coruja não demonstrar nenhum desconforto com a minha presença. Pelo contrário, ela estava extremamente tranquila e foi se aproximando aos poucos, voando para uma palmeira bem à minha frente. De repente, como se percebesse que estava sendo fotografada, passou a se comportar como uma celebridade diante de um paparazzo: começou a fazer poses, torcendo o pescoço e me observando atentamente.
Parecia curiosa comigo e com a câmera. Talvez estivesse tentando me enxergar de outros ângulos. Eu nunca tinha visto algo assim. Já conhecia o movimento das corujas ao virarem a cabeça para os lados, mas não daquela forma, quase lateral ao corpo. Foi uma situação totalmente incomum, e naquele momento só consegui sentir gratidão. Lembro de pensar: essa coruja é praticamente uma yogi...rs
Na época, a imagem circulou intensamente pela internet e fez um enorme sucesso entre os amantes da natureza e dos animais. A foto rodou o mundo, e cedi os direitos para diversos veículos de imprensa. Ainda hoje, depois de tanto tempo, sempre que olho para essa imagem fico surpreso.
Foi um verdadeiro presente. Muitas pessoas me conhecem até hoje por causa dela: “Ah, você é o Leonardo da foto da corujinha!”. Vale lembrar que, naquela época, as redes sociais ainda não tinham a força que possuem hoje. Fico muito feliz ao ver a reação das pessoas diante da imagem — dizem que ela transmite uma sensação boa, divertida e extremamente amigável.
***Seu trabalho também tem um forte viés de educação ambiental. Como você enxerga o papel do fotógrafo como educador e agente de transformação social?
L.C.: A educação ambiental chegou à minha vida antes mesmo da fotografia. Fiz parte de um grupo voluntário que realizava palestras em escolas e eventos, levando mensagens sobre a importância da preservação ambiental. Mais tarde, passei a atuar como professor e educador ambiental pela prefeitura. Foram anos de projetos, milhares de alunos atendidos e um trabalho que sempre foi minha grande paixão. Com o tempo, a fotografia passou a fazer parte desse caminho. Como mencionei anteriormente, ela tem o poder de aproximar as pessoas da vida selvagem. É preciso conhecer para preservar. A fotografia funciona como uma forma de comunicação poderosa, quase como um pedido da própria vida selvagem: “eu existo e preciso da floresta preservada para continuar meu ciclo de vida”. Ao tocar o coração das pessoas, ela se torna um instrumento forte e transformador de sensibilização e educação ambiental.
***Falando sobre o livro “Aves da Costa da Mata Atlântica”, como surgiu a ideia de escrever essa obra e qual foi o principal objetivo ao publicá-la?
L.C.: A ideia do livro nasceu do sonho de compartilhar minhas imagens com as outras pessoas e, ao mesmo tempo, auxiliar na identificação das espécies em campo na minha região. Este é o primeiro guia de aves da Baixada Santista. A região está inserida em uma área de Mata Atlântica e ecossistemas associados — como manguezais, restingas, ilhas oceânicas e costeiras —, formando um dos ambientes mais ricos do planeta em diversidade de aves. Conhecer essa riqueza é fundamental para que todos possam valorizá-la e preservá-la.
***Como foi o processo de produção do livro, desde o trabalho de campo até a seleção das imagens e dos textos científicos?
L.C.: Foram dez anos de observação contínua. Praticamente todos os fins de semana em campo, somando milhares de horas de dedicação e incontáveis imagens captadas. Houve muita lama, chuva, carrapatos e picadas de insetos… rs
O momento mais emocionante, porém, foi o lançamento da primeira edição do livro — um grande sonho realizado. O caminho até a publicação não foi fácil: encontrei muitas pedras pelo percurso e não consegui patrocínio. Cheguei a ter o projeto aprovado pela Lei Rouanet, mas acabei perdendo o prazo de captação de recursos por não conseguir parcerias.
Diante disso, decidi bancar tudo, mesmo sendo um investimento alto, pois era um sonho antigo. Fui juntando dinheiro aos pouquinhos e o projeto foi ganhando forma. No fim, tudo deu certo, porque quando fazemos as coisas com amor, dedicação e empenho, não há como dar errado.
***A Mata Atlântica é um dos biomas mais ameaçados do Brasil. Na sua visão, como a fotografia pode ajudar na valorização e preservação desse ecossistema?
L.C.: Através da fotografia, conseguimos revelar a rica diversidade de vida no interior da Mata, trazendo à tona uma exuberância muitas vezes invisível para a maioria das pessoas. Nosso objetivo é despertar o interesse e conscientizar sobre a importância de manter a floresta intacta, essencial para a preservação da vida.
***Que conselhos você daria para quem está começando na fotografia de vida selvagem e deseja unir imagem, ciência e conservação?
L.C.: Amar o que se faz acima de qualquer coisa. Sempre se aprimorar. Testar tudo, sempre. Se testar e testar o público, vendo o que dá certo. Não ter medo de se expor. Publicar as imagens e ir sempre buscando melhorar. Estudar seu equipamento e tirar o melhor proveito dele. Respeitar a natureza, o tempo e os ciclos. Ser sincero, honesto, verdadeiro. Expor o seu sentimento a todo o tempo e a alegria de poder realizar esse trabalho tão prazeroso e enriquecedor que é a observação da vida selvagem.
***Para finalizar, quais são seus próximos projetos — seja em fotografia, pesquisa, educação ou novas publicações?
L.C.: Trabalhei 10 horas por dia, por muitos anos. Nos últimos 2 anos consegui diminuir um pouco a carga horária no meu trabalho. Embora muita gente não saiba, sou professor na rede pública de ensino, dando aulas de Ciências para o Ensino Fundamental. A observação de aves, que tomou proporções tão grandes na minha vida, continua sendo, ainda, um hobby. Espero poder me dedicar mais, intensificar o trabalho nas redes sociais. Quero muito viajar. Ainda não conheço a Amazônia. Imagino quantas aves incríveis vou conhecer pessoalmente quando estiver por lá. Penso em novas publicações também, mas ainda é cedo para falar sobre. Estou pesquisando algo que possa ir de encontro com o interesse das pessoas. Mas, acima de tudo, é isso: não tem como parar. A observação de aves é uma paixão imensa, uma força que me move. É o que me faz respirar e acordar todos os dias com o desejo de realizar e compartilhar ainda mais.
A trajetória de Leonardo Casadei revela como a fotografia, quando guiada pelo conhecimento e pelo respeito à natureza, pode se tornar uma poderosa aliada da conservação e da educação ambiental. Seu trabalho nos lembra que observar, compreender e registrar a vida selvagem é também um ato de responsabilidade.
O Clube de Fotografia Campinas (CFC) agradece imensamente a disponibilidade e a generosidade do Leonardo em compartilhar sua experiência, seu olhar e sua paixão pela biodiversidade brasileira.
Que esta entrevista inspire novos caminhos, olhares mais atentos e uma relação cada vez mais consciente com o mundo natural.
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