Entrevista com Gustavo Minas

Entrevista com Gustavo Minas

A fotografia de rua é um território onde o acaso, a observação e a sensibilidade se encontram. Entre os nomes mais relevantes da fotografia de rua contemporânea no Brasil, Gustavo Minas se destaca por um olhar preciso, atento às relações entre pessoas, espaço urbano, luz e cor. Aproveitem para visitar o site do Gustavo! E o instagram!
Nesta conversa com o Clube da Fotografia Campinas, Gustavo fala sobre sua trajetória, processo criativo, escolhas estéticas e reflexões sobre fotografar a cidade nos dias de hoje.

1️⃣ Início

Como a fotografia entrou na sua vida e em que momento você percebeu que a rua seria o seu principal campo de criação?

Eu tinha estudado um pouco de técnica durante a faculdade de jornalismo, no começo dos anos 2000, mas foi só quando eu fiz um curso com o Carlos Moreira em SP, em 2009, que a fotografia realmente “bateu”, porque o curso dele não era nada voltado à técnica, e sim à linguagem, e foi lá que fui descobrindo toda a tradição da fotografia, especialmente a de rua. Começando com preto-e-branco, André Kertész, Bresson, Atget, Lee Friedlander, até chegar nos mais contemporâneos de cor, como Harry Gruyaert, Alex Webb, Saul Leiter, Pinkhassov… desde então não parei mais. 

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2️⃣ O olhar na cidade

O que mais te atrai nas ruas: as pessoas, a arquitetura, a luz ou o imprevisível dos encontros?

A luz é o fator que me guia. Se tem uma cena interessante acontecendo, mas não tem luz sobre ela, até faço a foto, mas depois não me convence tanto. Tenho um pouco de obsessão com isso, com como as coisas mudam sob certas luzes. Acho que até as coisas mais banais ficam interessantes se a luz está “certa”. Ela dá uma vibração diferente para os objetos e parece que transforma as pessoas na rua em atores de cinema.

3️⃣ Influências

Quais fotógrafos ou referências visuais foram fundamentais na construção do seu olhar fotográfico?

O Carlos Moreira foi fundamental pelo rigor com a construção da imagem. Me ensinou muito sobre como compor, organizar o quadro - coisas que ele mesmo aprendeu estudando tão a fundo o Henri Cartier-Bresson.

Mas como comentei, fotógrafos de cor mais contemporâneos me influenciaram ainda mais na prática, porque percebi que a luz do trabalho de caras como Alex Webb, Gruyaert ou Pinkhassov era meio parecida com a que eu enxergava no Brasil, e também pelo fato de eles fotografarem coisas mais próximas da minha realidade, que não tinha nada a ver com a Paris dos anos 30 a 50 do Bresson ou do Kertész. Compreender que eu não dependia de fatos extraordinários para fazer fotos foi muito libertador. Entre os brasileiros, também gosto muito do Luiz Braga e do Miguel Rio Branco, pra ficar nos mais “antigos”.31036942074?profile=RESIZE_584x

4️⃣ Processo criativo

Quando sai para fotografar, você parte de uma ideia prévia ou prefere se deixar conduzir totalmente pelo que acontece?

Prefiro me deixar surpreender, apesar de ter um pouco de programação a respeito de tentar estar nos lugares com bastante movimento na hora certa, em que a luz vai estar “boa”. Mas não consigo nem tenho vontade de ficar preconcebido as imagens.

5️⃣ Técnica e equipamento

Qual é o papel da técnica e do equipamento no seu trabalho e como você equilibra isso com a intuição?

O equipamento só tem que responder rápido o suficiente para acompanhar a intuição, e é isso que eu procuro. Não penso que a câmera não importa, mas nem sempre as mais caras e com mais recursos são as melhores. O ideal é ter essa fluidez, em que os movimentos dos dedos acompanhem o olhar e o pensamento. 

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6️⃣ Cor, forma e composição

A cor e a composição são elementos muito marcantes no seu trabalho. Como essas escolhas acontecem no momento do clique?

Muito intuitivamente, porque cada situação pede uma abordagem e determina uma resposta diferente. Tem situações muito caóticas que é melhor excluir algumas cores da composição, para manter uma paleta mais limitada, e tem situações não muito interessantes visualmente em que um pouco de cor pode fazer a foto. Também não é que eu fique analisando a paleta de cores com muita minúcia, vou fotografando olhando pelo visor e tentando entender se tem harmonia no quadro.

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7️⃣ Edição e curadoria

Depois da captura, como é o seu processo de edição e seleção das imagens? Você é rigoroso nessa etapa?

Eu gosto de tratar as fotos assim que consigo, mas demoro seis meses para publicar online. Isso me força a ter um olhar um pouco mais frio sobre as fotos, e também a estar sempre analisando minha produção, as evoluções e involuções, ehe. Na hora de postar, gosto de organizar em pequenas séries, isso me ajuda a exercitar sempre a edição. E na hora de escolher pro site ou livro, aí sim vem um trabalho um pouco mais rigoroso, com mais tempo.

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8️⃣ A fotografia de rua hoje

Como você enxerga a fotografia de rua na atualidade, especialmente em um contexto dominado pelas redes sociais e pelo imediatismo das imagens?

Muito difícil responder a essa, porque tem muitas fotografias de rua por aí, desde a boa e velha até a fotografia urbana, passando pelos retratos de moças bonitas do TikTok. O que eu sempre tento ter em mente é que a (minha) fotografia de rua não é pra ser pro agora. Claro que é bacana compartilhar, mas o pensamento tem que ser pra frente, temos que lembrar que estamos construindo um documento sobre nossas experiências nas cidades e sobre a população. E acima de tudo, o mais importante é o lado invisível e intraduzível em imagens da fotografia, que é a experiência em si de andar por aí com a cabeça aberta, observando, se integrando e se esquecendo de si mesmo.

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A fotografia de rua, mais do que um registro do cotidiano, é um exercício constante de atenção, respeito e construção de linguagem. A obra de Gustavo Minas nos lembra que fotografar a cidade é, antes de tudo, aprender a olhar — com tempo, sensibilidade e intenção.
Agradecemos imensamente a disponibilidade e generosidade em compartilhar seu olhar e sua experiência com o Clube da Fotografia Campinas.

Todas as fotos foram gentilmente cedidas pelo Gustavo Minas que autorizou a publicação pelo Clube da Fotografia Campinas

 

 

 

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Comentários

  • Parabéns ao FotoClube de Campinas pela excelente matéria!
    A visão do Gustavo Minas sobre luz e cores é uma referência vital. Conteúdo essencial para qualquer fotógrafo que deseja sair do óbvio e treinar novos olhares sobre o cotidiano.
  • Belas fotos, explorando as cores, saindo daquele "clichê" de fotografias de rua só em preto e branco
Esta resposta foi excluída.